Transtorno Bipolar Tipo I: muito além das mudanças comuns de humor

O transtorno bipolar não significa simplesmente estar bem em um dia e triste no outro. Ele envolve episódios definidos de alteração do humor, da energia, do sono, do pensamento e do comportamento.

Durante uma fase de mania, a pessoa pode se sentir excepcionalmente produtiva, poderosa ou confiante e não perceber que está adoecendo. Em outros casos, predominam irritabilidade, impaciência, conflitos e decisões impulsivas.

O que caracteriza o transtorno bipolar tipo I?

O diagnóstico requer a ocorrência de pelo menos um episódio maníaco. Episódios depressivos são frequentes, mas não são obrigatórios para a definição do tipo I.

A mania envolve humor anormalmente elevado, expansivo ou irritável e aumento persistente da energia ou atividade. O episódio dura pelo menos uma semana, ou qualquer duração quando a gravidade exige hospitalização.

Também existe prejuízo importante, risco, necessidade de internação ou sintomas psicóticos (American Psychiatric Association, 2022).

Quais são os sinais de mania?

Podem ocorrer:

  • redução acentuada da necessidade de sono;

  • aumento incomum da energia;

  • fala acelerada ou difícil de interromper;

  • pensamentos muito rápidos;

  • aumento de projetos e atividades;

  • autoestima exagerada ou grandiosidade;

  • irritabilidade intensa;

  • distração;

  • gastos excessivos;

  • decisões financeiras arriscadas;

  • maior impulsividade;

  • desinibição sexual;

  • conflitos;

  • direção imprudente;

  • uso de álcool ou outras substâncias;

  • delírios ou alucinações.

Dormir pouco por obrigação e sentir-se cansado no dia seguinte é diferente de apresentar redução da necessidade de sono. Na mania, a pessoa pode dormir poucas horas e continuar se sentindo cheia de energia.

E os episódios depressivos?

Os episódios depressivos podem envolver tristeza, perda de interesse, falta de energia, alterações do sono ou do apetite, dificuldade de concentração, culpa, desesperança e pensamentos de morte.

Muitas pessoas procuram atendimento durante a depressão e não reconhecem episódios anteriores de mania. Por isso, investigar longitudinalmente o humor é indispensável antes de definir o diagnóstico e o tratamento.

O que são características mistas?

Em algumas situações, sintomas de mania e depressão aparecem simultaneamente. A pessoa pode apresentar aceleração, inquietação ou redução do sono enquanto sente angústia, desesperança ou pensamentos suicidas.

Apresentações mistas exigem atenção especial por poderem envolver sofrimento intenso, impulsividade e maior risco.

Como é realizada a avaliação?

A avaliação inclui:

  • reconstrução dos episódios ao longo da vida;

  • padrão de sono e energia;

  • mudanças observadas por familiares;

  • decisões financeiras, profissionais ou sexuais;

  • episódios depressivos;

  • sintomas psicóticos;

  • histórico de hospitalizações;

  • tratamentos anteriores e resposta a antidepressivos;

  • uso de substâncias;

  • medicamentos capazes de alterar o humor;

  • condições clínicas, neurológicas e endócrinas;

  • história familiar;

  • avaliação do risco.

Informações de familiares podem ser importantes, especialmente quando a pessoa não percebe as mudanças durante a mania.

Não existe exame isolado que confirme transtorno bipolar. Exames podem ser solicitados para investigar diagnósticos diferenciais e garantir a segurança do tratamento.

Transtorno bipolar tem tratamento?

Sim. O tratamento costuma combinar medicamentos, psicoeducação, acompanhamento longitudinal e, quando indicado, psicoterapia.

Diferentes medicamentos podem ser utilizados conforme a fase: mania, depressão bipolar ou prevenção de novos episódios. Estabilizadores do humor e antipsicóticos estão entre as principais opções.

Antidepressivos exigem cautela e não são utilizados isoladamente no transtorno bipolar tipo I, pois podem agravar instabilidade em determinados pacientes (Keramatian, Chithra & Yatham, 2023).

Regularidade do sono, redução do uso de álcool e outras substâncias, identificação precoce de mudanças e participação familiar podem integrar o plano.

Não se deve interromper um estabilizador do humor abruptamente ou modificar doses sem acompanhamento.

Quando procurar ajuda?

Considere avaliação quando houver:

  • períodos de energia e atividade muito acima do habitual;

  • redução da necessidade de sono;

  • gastos ou decisões impulsivas;

  • alternância entre aceleração e depressão;

  • piora após antidepressivos;

  • sintomas psicóticos;

  • prejuízo financeiro, profissional ou familiar;

  • episódios recorrentes de depressão;

  • histórico familiar de transtorno bipolar.

Quando é uma urgência?

Mania com agitação intensa, psicose, agressividade, comportamento de risco, incapacidade de autocuidado ou ausência prolongada de sono pode exigir atendimento imediato.

O mesmo vale para depressão com intenção suicida, planejamento ou incapacidade de permanecer em segurança. Procure um serviço de emergência ou acione o SAMU pelo telefone 192.

Perguntas frequentes

Bipolaridade é mudança rápida de opinião ou humor?

Não. O diagnóstico exige episódios clínicos com alterações persistentes de humor, energia, sono e comportamento.

Quem tem transtorno bipolar sempre apresenta depressão?

Episódios depressivos são muito frequentes, mas o diagnóstico de bipolar I é definido pela presença de mania.

A pessoa percebe que está em mania?

Nem sempre. Ela pode interpretar a fase como produtividade, confiança ou recuperação.

O tratamento precisa continuar quando a pessoa está bem?

Frequentemente, sim. A fase sem sintomas também é um período de prevenção de novos episódios. A duração deve ser discutida individualmente.

Estabilidade também precisa ser protegida

Uma avaliação longitudinal permite diferenciar transtorno bipolar de depressão unipolar, TDAH, uso de substâncias e outras condições. O objetivo não é apenas controlar uma crise, mas reduzir recorrências e preservar funcionamento, relações e projetos de vida.

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação médica individual.

Referências científicas

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed, text rev. Washington (DC): American Psychiatric Association Publishing; 2022. doi: 10.1176/appi.books.9780890425787.

  2. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344-353. doi: 10.1176/appi.focus.20230009.

  3. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185. London: NICE; 2014.

  4. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda (MD): NIMH; 2025 [citado em 28 ago 2026]. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/bipolar-disorder.