Enurese e encoprese: avaliação e cuidado
Pablo E. P. Dutra, MD, MSc Psych.
Médico Psiquiatra · CRM-RJ 52.84015-7 · RQE 26100
Atualizado em 25 de outubro de 2026.
Molhar a cama ou sujar a roupa com fezes pode provocar vergonha e preocupação. Esses episódios merecem compreensão e avaliação; repreender, ridicularizar ou atribuir preguiça à criança pode aumentar o sofrimento e dificultar o cuidado.
O que são enurese e encoprese?
Enurese é a eliminação repetida de urina na cama ou na roupa em uma fase na qual esse controle já seria esperado. Pode ocorrer durante a noite, de dia ou nos dois períodos. O diagnóstico considera idade de pelo menos cinco anos — ou desenvolvimento equivalente —, frequência, duração e impacto. Os critérios incluem episódios ao menos duas vezes por semana por três meses ou sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo (American Psychiatric Association, 2022).
Encoprese é a eliminação repetida de fezes em locais inadequados, como a roupa. Os critérios diagnósticos consideram idade de pelo menos quatro anos — ou desenvolvimento equivalente — e episódios ao menos mensais por três meses. É preciso investigar constipação, escapes por transbordamento e outras explicações médicas (American Psychiatric Association, 2022).
Essas idades orientam o diagnóstico, mas não são motivo para adiar uma consulta quando existem dor, outros sintomas ou sofrimento importante. O desenvolvimento do controle urinário e intestinal varia entre crianças.
Qual é a relação entre encoprese e constipação?
Evacuar com dor pode levar à retenção de fezes. O acúmulo torna a evacuação ainda mais difícil e pode permitir o vazamento de fezes mais amolecidas ao redor do conteúdo retido. Por isso, sujar a roupa não exclui prisão de ventre. A avaliação verifica consistência das fezes, dor, frequência, comportamento de retenção e sinais de outras doenças (NICE, 2010, CG99).
O que deve ser investigado?
A consulta considera história do desenvolvimento, quando os escapes começaram, períodos anteriores de continência, rotina de banheiro e efeitos na escola e em casa. Também avalia alimentação, líquidos, sono, medicamentos, infecção urinária, constipação e outros problemas clínicos. Exames são definidos pelos achados; não existe um conjunto obrigatório igual para todas as crianças.
Estresse e mudanças de rotina podem participar do quadro, mas não permitem concluir que a causa seja emocional. Enurese ou encoprese, isoladamente, também não demonstram abuso ou intencionalidade.
Como é tratado o escape de urina?
O plano pode incluir orientação sobre ingestão adequada de líquidos durante o dia, acesso regular ao banheiro e uso do banheiro antes de dormir. Alarmes de enurese e, em situações selecionadas, medicamentos podem ser considerados conforme idade, sintomas e possibilidades da família (NICE, 2010, CG111).
Recompensas devem valorizar comportamentos que a criança consegue realizar, como participar da rotina combinada, e não exigir noites secas. Não se recomenda treinar a criança a adiar progressivamente a micção nem interromper o jato como exercício. Não restrinja líquidos de modo excessivo. Medicamentos exigem orientação médica, inclusive sobre segurança e ingestão de líquidos (NICE, 2010, CG111).
Como é tratado o escape de fezes?
Quando há constipação, é necessário tratá-la. O cuidado pode envolver desimpactação quando indicada, medicamentos prescritos para manter fezes macias, uma rotina de banheiro e acompanhamento. Alimentação e hidratação fazem parte do plano, mas podem não ser suficientes isoladamente. Procedimentos retais ou intervenções invasivas dependem de indicação específica e não devem ser realizados por conta própria (NICE, 2010, CG99).
A orientação à família e à escola ajuda a preservar a privacidade e a participação nas atividades. Acompanhamento psicológico pode ser útil quando há ansiedade, vergonha, conflitos ou outras condições associadas.
Quando procurar atendimento com prioridade?
Procure avaliação rápida diante de dor ao urinar, febre, sangue, sede excessiva, perda de peso ou início súbito dos escapes. Incapacidade de urinar com dor, distensão abdominal importante ou vômitos persistentes exigem atendimento urgente. Sintomas urinários ou intestinais novos na vida adulta também precisam de investigação clínica.
Perguntas frequentes
É falta de esforço da criança?
Não se deve interpretar o escape como falha moral. O cuidado procura entender o funcionamento urinário e intestinal, o desenvolvimento e o contexto.
É o mesmo que parurese ou parcoprese?
Não. Parurese e parcoprese descrevem dificuldades situacionais de urinar ou evacuar, frequentemente relacionadas à presença de outras pessoas ou à falta de privacidade. Escapes de urina ou fezes exigem uma avaliação própria.
Como buscar cuidado no Rio de Janeiro
Na infância, a avaliação costuma começar com o pediatra. Conforme os achados, pode envolver urologia, gastroenterologia pediátrica e profissionais de saúde mental com experiência infantojuvenil. Ansiedade e sofrimento emocional devem ser acolhidos, sem substituir a investigação clínica.
Informações sobre atendimento e encaminhamento · Parurese: dificuldade de urinar em certas situações · Parcoprese: dificuldade de evacuar fora de casa
Conteúdo informativo. O diagnóstico e o tratamento dependem de avaliação médica individual.
Referências científicas
American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed., text rev. 2022. doi:10.1176/appi.books.9780890425787.
National Institute for Health and Care Excellence. Bedwetting in under 19s. CG111. 2010. Diretriz.
National Institute for Health and Care Excellence. Constipation in children and young people: diagnosis and management. CG99. 2010. Diretriz.

